A maior
comparação com Pelé, até o início do século XXI era se Maradona equiparava ao
‘maior jogador de todos os tempos’. Argumentos contrários apareciam por toda a
imprensa (especialmente a brasileira) durante os anos 80 e 90, tentando mostrar
o porquê do camisa 10 da seleção canarinho ser imbatível. Muitos destas
justificativas soavam forçadas ou até desesperadas, no afã de preservar o maior
nome do esporte do Brasil. E, apesar da
genialidade de Diego Armando, ele não estava a altura da empreitada.
Mas eis que
um outro jogador argentino aparecia nas canterias do Barcelona.
Com saúde
debilitada e desprezado pelos clubes de seu país (River e Newell’s) Jorge Messi
levou seu filho Lionel para a Catalunha. Lá, um olheiro do Barcelona o
recomendou e, após 30 segundos a diretoria do time catalão se convenceu da sua
contratação e aceitou, também, custear o tratamento.
Desde os 12
anos, Leo Messi vem encantando quem o vê jogar. E quando, finalmente, estreou
no time titular do Barça, sua torcida viu que ali nascia uma lenda.
Todos os
seus feitos e conquistas o colocaram no topo, mas os arautos do futebol brasileiro se apressaram em
desmistificar o jogador argentino. Os argumentos? Os mesmos que usavam para
diminuir Diego Maradona. Mas dessa vez, os fatos falam por si.
PELÉ TEM MAIS DE 1200 GOLS – A imensa maioria de seus gols foram
anotados no Campeonato Paulista; a segunda maior estatística, nos amistosos
internacionais. Em jogos oficiais o número diminui. Computando Paulista,
Rio-SP, Taça Brasil, o total é quase 700 gols, mais da metade de todos os seus
tentos marcados.
Na Espanha,
não há campeonatos “estaduais”; e os nacionais (Liga e Copa do Rei) têm nível
elevado, onde alguns times disputam os principais torneios europeus. Em âmbito
nacional Santos enfrentou apenas alguns times de peso, e foram sazonais. Ora
Botafogo, de Jairzinho, ora Cruzeiro de Tostão, ora a Academia do Palmeiras.
Não havia competividade nacionalmente falando. Mas vivia-se a Era de Ouro da
seleção brasileira. Foi a fase dos primeiros títulos, que vieram quase em
sequência. Poucas equipes faziam frente à trupe canarinho. E, contando-se
amistosos e jogos oficiais, Pelé fez barba, cabelo e bigode.
Outro fator é a disputa polêmica do Mundial Interclubes de 1963. Como o Santos havia sido goleado pelo Milan, na Itália, teve que devolver o placar na volta, no Brasil. Isso gerou um terceiro jogo de desempate. O time italiano, do jogador brasileiro Amarildo, era melhor do que o alvinegro praiano. O jeito foi usar subterfúgios para compensar. Almir Pernambuquinho, que admitiu anos depois ter usado substância ilícita (tomou uma "bomba") para jogar, caçou Amarildo o tempo inteiro, tentando lesionar o atacante milanês. Com isso acabou por prejudicar a equipe adversária. A vitória só veio através de um pênalti polêmico, dado ao Santos. Resultado final: 1x0 e a certeza de que o time brasileiro não era mais imbatível como antes. A solução foi não disputar mais a competição, com a desculpa de que era mais rentável ao time da Vila Belmiro se concentrar apenas em amistosos. Uma tentativa de preservar o clube e evitar eventuais fracassos que pudessem mexer com a imagem do time mais vitorioso do Brasil.

Em
competições mais equilibradas, Lionel conquistou artilharia no continente
europeu em 5 oportunidades, além da nacional.
MESSI NÃO JOGARIA NA ÉPOCA DE PELÉ – Talvez a expressão seja inversa. Na
época de Pelé, o futebol era outro. O ritmo era menor, o preparo físico dos
jogadores era inferior ao de hoje (antes, corria-se 8 quilômetros por jogo; os
atletas chegam a quase 13 hoje em dia) e a marcação da
atualidade é mais compacta e, portanto, com menos espaço para criação. Se
Messi, que foi forjado para atuar contra esse jeito e esse estilo, joga tudo o
que sabe, deslumbrando o mundo, imagina naquele tempo? Já Pelé...

LIONEL MESSI NÃO VENCEU COPA DO MUNDO
– Na verdade,
venceu. Siga o raciocínio: hoje, a principal competição chama-se LIGA DOS
CAMPEÕES. Os maiores jogadores do mundo estão nela. Já em uma Copa do Mundo,
nem sempre. Tome como exemplo um Bale, do Real Madrid, que atua por País de
Gales; ou Lewandowski, que é polonês. Ou até os grandes nomes das seleções
africanas que jogam nas principais equipes da Premier League ou Campeonato
Alemão e Francês. Suas respectivas seleções dificilmente chegarão à Copa, o que
nos privaria de seu futebol, mas é certo vê-los na Champions todos os anos.
Portanto, em grau de importância e de nível técnico, a Liga é muito superior. E
nesse torneio, que é o mais disputado do planeta e o argentino enfrentou TODOS os grandes times da Europa, mais de uma vez, fazendo gols, dando assistências e encantando o mundo, Messi tem 4 conquistas.
Sem contar que Pelé das 3 conquistas, foi revelação em 58 (mas não o destaque), foi espectador em 62, já que se contundiu na primeira partida, e viu Garrincha desequilibrar para os brasileiros e parte de um grupo genial em 70. Nunca o protagonista.
MESSI SÓ CHUTA COM A ESQUERDA – Muitos dos detratores do futebol do
argentino alegam que ele só joga com a perna esquerda. Novamente
desconhecimento de causa. Messi também joga (e marca) com a direita, além de
ter em seu currículo vários gols de cabeça, peito, com a própria perna direita,
mostrando sua polivalência.

MESSI PRECISA PROVAR SEU VALOR NA
SELEÇÃO DE SEU PAÍS –
Talvez as pessoas esqueçam o fato que Pelé, apesar de ter sido fenomenal,
sempre jogou ao lado de gênios absolutos do futebol. Além de seus costumeiros
parceiro no Santos (Durval, Mengálvio, Coutinho, Pepe), na seleção de 58 teve Vavá,
Nilton Santos, Djalma Santos, entre outros. Em 62, Garrincha, Zito, Amarildo,
Didi, Pepe. Em 70, a seleção mais completa de todos os tempos: Tostão, Gérson,
Jairzinho, Rivellino, Clodoaldo e Carlos Alberto. Leo padece do mal que é
carregar a seleção argentina inteira nas costas. Um fardo difícil, até para
alguém igual a ele. Não que DiMaria, Aguero, Higuain, Pastore, Dyballa e Tevez
sejam jogadores ruins. Ao contrário. Mas a diferença entre o 10 e os demais é
abissal. Pelé não teria o mesmo sucesso se fosse ele e mais dez jogadores comuns. Não teria feito sequer metade dos gols que tem.

AMBOS NÃO TEM PERSONALIDADE – Meia verdade. Se Messi é avesso às câmeras
é devido seu autismo de infância (um tipo brando, por assim dizer) e por ser quase recluso por
natureza. Também evita polêmicas ou se
manifestar sobre algum assunto mais contundente. Mas ele começou a quebrar essa
escrita recentemente na seleção argentina ao liderar o grupo de jogadores para
protestar contra a cobertura da imprensa local contra alguns de seus
companheiros. Pouco, mas um começo.
Já Pelé
sempre foi omisso por conveniência. Nunca protestou contra a ditadura no
Brasil, sequer reclamou do racismo crônico no nosso país. Além de fazer parte
do “establishment” do futebol, visando sempre lucro, e com relações perigosas com a CBF.
Mas uma coisa é
certa: ambos poderiam fazer mais pelo futebol mundial.
MESSI É JOGADOR DE UM TIME APENAS – Bom, Pelé foi jogador apenas do Santos
(seu fim de carreira nos EUA não conta) e nem por isso teve seu potencial
desacreditado. Ao contrário; deu a ele (e ao clube) um status
diferenciado. E atuar por um time único
na carreira deveria ser motivo de celebração, devido a alta rotatividade de
jogadores, que jogam em um clube em uma temporada e pelo rival em outra.

PELÉ CONSEGUIU "PARAR" UMA GUERRA - Em uma excursão pela África, mais precisamente pelo Congo e Nigéria, as guerras locais foram suspensas para ver o time do Santos. Mas isso não é primazia do time praiano. O Dínamo de Kiev (então com o nome de F.C. Start) enfrentou o nazismo, dando ânimo à resistência ao ganhar do time dos nazistas, durante a Segunda Guerra. Assim como a Seleção Brasileira no Haiti. Assim como o marfinense Drogba que conseguiu um cessar fogo em seu país ao conquistar a vaga para a Copa do Mundo. O feito de Drogba é mais impressionante, pois poderia sofrer retaliações em sua nação.

Já Messi conseguiu algo quase tão significativo. O menino afegão Murtaza Ahmadi se esqueceu, por alguns instantes da realidade sofrida em seu país (guerra, fome, abandono, destruição), e usou uma camisa feita de plástico com o número 10 da seleção argentina. O menino, então, conheceu Lionel em um amistoso realizado no Qatar, onde a despeito de todos os horrores que Murtaza e sua família enfrentam, o garoto conseguia se esquecer de tudo isso, pois estava ao lado de seu ídolo, realizando um sonho.
JOGADOR DO SÉCULO XX e XXI –
Há uma certa
contradição na escolha do melhor jogador e clube do século XX. Pelé foi eleito
o atleta do século, mas o Santos foi escolhido apenas como o 5º time, atrás de
Real, Manchester, Bayer e Barcelona. Já a melhor equipe foi o Real Madrid de Di
Stéfano e Puskás.
No século
XXI, o Barcelona já é considerado o principal clube, devido ao futebol,
conquistas, importância no cenário mundial. Assim como Lionel Messi é o maior
atleta desta era. Uma contradição flagrante. E nem adianta os alienados
reclamarem da eleição da Fifa, pois foi a mesma que colocou Edson Arantes do
Nascimento como o maior jogador da história (até o surgimento de Messi, é
claro).
Na real, se Pelé fosse dinamarquês e Messi
francês, aqui no Brasil ninguém estaria se importando com essa disputa. Mas por
se tratar do atleta que foi considerado o maior do século XX sendo brasileiro,
e de um argentino seu maior concorrente, a gente acaba vendo uma
verdadeira batalha naval, no que tange a argumentos para defender um ou
defenestrar outro.
Essa visão
vem, em especial de jornalistas da velha geração, retrógrados e que se apegam
ao passado (sempre temendo o novo), com seus dogmas baseados na paixão, e não
na razão. Este “profissional” da velha guarda não consegue se livrar de seu ponto
de vista limitado, cheio de saudosismo do nosso outrora glorioso futebol
canarinho.
Mas essa
fase passou.
Desaprendemos como se faz o futebol arte e tivemos que ver um time
espanhol nos ensinar novamente como se faz isso. Essa foi a declaração de Pep
Guardiola após seu Barça humilhar o Santos de Neymar e Ganso, na final do
Mundial de clubes em 2011: “eu aprendi vendo vocês (brasileiros) jogarem; eu vi a
seleção de 82 e meu pai viu a de 70”. Aí está a chave da questão; não gostamos
de ver os outros fazendo algo em que nós tivemos predominância, respeito (e
relevância) durante décadas. Como essa época acabou –e um 7x1 sofrido contra a
Alemanha só externa ainda mais a fragilidade do que acontece por aqui, dentro e
fora das quatro linhas—muitos se sentem ressentidos e preferem criticar sem
fundamento, do que aceitar o inevitável.
Por isso
faço minhas as palavras do jornalista da ESPN Brasil, Mauro César Pereira: quando Messi parar de jogar, ele será o ÚNICO
que poderá se sentar à mesa junto de Pelé.
Mais
brilhante, impossível