domingo, 3 de junho de 2018

Tite e a ausência de crítica da imprensa







A chamada “era Dunga” foi permeada por alguns resultados adversos e uma excessiva “Neymardependência”. Além de um futebol pragmático que pouco inspirava os torcedores. Mas apesar disso, ainda teve seus momentos. Poucos, mas teve. O que não vimos foi a crônica esportiva aliviar para o então técnico da seleção brasileira. As vezes até uma certa má vontade com relação a seu trabalho. O que é exatamente o oposto do que acontece agora com Tite.




Tite se destacou no cenário do futebol com seu trabalho a gente do Corinthians. Ironicamente chamado muitas vezes de “empatite”, pelos resultados magros, ou empates conquistados de maneira sofrida. Mas sem dúvida foi um projeto vitorioso ao longo do tempo. E em contrapartida a Dunga, o atual treinador é um estudioso e procura evoluir na carreira. Seu antecessor se contentava com a vitória como jogador na Copa do Mundo de 1994. Pouco para quem precisa ter um repertório maior em momentos de provação.


Mas Tite não é o melhor técnico do mundo. Longe disso. Apenas soube como montar uma equipe competitiva em um momento turbulento do escrete canarinho. Classificou a seleção para o mundial da Rússia com algumas rodadas de antecedência. Mas alguns nomes de suas convocações são a prova que ele é um homem de hábitos. Prefere o “prato do dia”, invés de inovar. Ausência de nomes como Luan e Arthur do Grêmio foi muito questionada na convocação final. Mas insistiu com Thiago Silva, chamou várias vezes Fred, que era do Shakhtar Donetsk (Ucrânia) mas graças as convocações conseguiu uma transferência para o Manchester United e está levando o mediano Taison do mesmo time ucraniano. E na imprensa paira uma espécie de “sim, mestre”. Mas a discrepância no tratamento dispensado ao atual e o ex treinador à frente do time nacional, pela imprensa, não fica por aí.


Muitas vezes Dunga jogava pelo resultado. Ele fechava o time e as duras penas conseguia um bom resultado. Era sumariamente criticado pelos jornalistas esportivos. Um futebol de resultados que ora ou outra foi eficiente. Mas Tite parece gozar das benesses de ser uma 'quase' unanimidade. No amistoso contra a Croácia, com vitória por 2x0, o treinador brasileiro entrou em campo com 3 voltantes: Casemiro, Fernandinho e Paulinho. Paulinho até avança mais e chega à área adversária, mas não deixa de ser um volante em sua posição de origem. Alguém da crônica esportiva se dignificou a tratar do assunto? 'É, mas ganhamos o jogo', diria o mais incauto. Bom, Dunga ocasionalmente ganhava algumas partidas, e da mesma maneira conservadora que a atual técnico do Brasil. E pelas redações Brasil afora sobravam só críticas. O velho caso de “dois pesos e duas medidas”.


Dunga sempre foi arisco em suas entrevistas coletivas. Por vezes até ríspido. Tite, como disse brilhantemente o ex jogador do São Paulo, o uruguaio Lugano, é um “encantador de serpentes”. Diz o que as pessoas querem ouvir, não se envolve em polêmicas, é incapaz de mandar uma resposta enviesada para seu interlocutor e sempre mantém seu mesmo tom de voz, quase hipnótico durante a interação. Os poucos críticos que ele tem na imprensa esportiva são logo criticados por colegas de profissão que não admitem uma oposição ao atual técnico da seleção. Isso é perigoso. Jornalistas deveriam ser críticos, imparciais e investigativos. O fato de Tite ter “arrumado a bagunça” que era o time brasileiro não o torna um guru, um revolucionário do futebol. Ele é apenas alguém que classificou a seleção para mais uma Copa e que chega com status de favorita. Exatamente o que todos os outros treinadores fizeram antes dele.


Se é pra haver esse estado de alienação e letargia da crônica esportiva, abdicando do senso crítico, seria bom que entregassem seus crachás na redação onde trabalham e se tornem de vez o que mais gostam: porta-vozes de Tite.