quinta-feira, 24 de novembro de 2016

As Viúvas de 82...




Sei que parece heresia futebolística tecer alguma crítica à seleção de futebol de 1982, do técnico Telê Santana, mas constatei que certas pessoas ainda não superaram o trauma (??) e continuam a lamuriar pelos cantos o quanto o ‘futebol arte’ perdeu naquele fatídico dia. Peraí, perdeu? Vamos por partes.






É claro que uma seleção de futebol que conta com talentos incontestáveis como Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Júnior, Leadro e cia ltda, não pode ser desprezada. Ao contrário; um time invejável e com um primor no toque de bola. O mundialito realizado no ano anterior mostrou isso e credenciou a “seleção canarinho” ao título que não conquistava desde 1970 (portanto a cobrança já era enorme). Telê soube reunir muitos talentos juntos para render o máximo possível, mas o corte do atacante Careca o obrigou a escalar o atacante Serginho Xulapa no time --claramente um peixe fora d’água, em uma equipe com toques tão refinados.



Com um começo que encantou a crônica esportiva europeia, o time brasileiro criou um status de imbatível e, ao ter a Itália como adversária nas quartas de final, a vitória já era dada como certa. Só esqueceram de combinar com a azzura. Aí começou a comédia de erros da imprensa brasileira.
Considerar a seleção italiana “galinha morta” foi um dos muitos equívocos naquela semana. O resultado todos sabem,3x2 para os italianos e com lamentos pelos quatro cntos do país. E esse é o ponto nevrálgico. NÃO FOI INJUSTO E NEM A SELEÇÃO DE TELÊ ERA TÃO PERFEITA ASSIM! Havia cisão no grupo, onde alguns jogadores tinham um contrato de publicidade individual ,que os obrigava a comemorar o gol próximo a placa da empresa que os estavam patrocinando. Normal, mas suscita um certo individualismo momentâneo, que acaba atrapalhando. O time era um primor no toque de bola sim (hoje só o Barcelona se aproxima daquele time), mas a defesa não era consistente e nem tinha volantes de contenção que desse segurança. Ao contrário do time brazuca que era um grupo de craques, a seleção da Itália era um time compacto, com bons jogadores, e em nenhum momento esteve ameaçado seu predomínio durante a partida. Essa vitória se tornaria um divisor de águas e culminaria com o título de forma incontestável. A “tragédia de Sarriá” como ficou conhecida pelas viúvas da crônica esportiva, até hoje é lembrada pela derrota do futebol espetáculo em detrimento ao futebol de resultados. Novamente um erro. A seleção da Itália vinha mal das pernas devido a problemas internos, como em 2006 e, tal qual naquele ano, as dificuldades fortaleceram os jogadores que fizeram das críticas, combustível para a superação. E contra uma favoritíssima seleção brasileira conseguiram, e com estilo. Sem sombra de dúvidas (e sem ufanismo exacerbado) venceu o melhor.






Pode-se dizer que aquela derrota fez com que, no cenário nacional houvesse um retrocesso que culminou na seleção campeã de Parreira, em 1994. Justo. Até porque a cobrança por resultados era enorme e a escassez de títulos colocava muita pressão na comissão técnica (quem quer que fosse). E se a única coisa da qual o brasileiro se orgulhava de ser bom é no futebol, não conquistá-lo por 24 anos era um acinte. Mostrava sua fragilidade e sua necessidade extrema de autoafirmação, saciada de tempos em tempos por conquistas da seleção canarinho. Nisso, o pragmatismo de Carlos Alberto Parreira e de seu parceiro Zagallo foi muito eficiente.



E quanto às viúvas, bom, já se passaram mais de três décadas, então está na hora de seguir em frente.




EM TEMPO: chorei muito aquele revés do time de Telê, mas devemos dar o devido crédito aos vencedores, e não diminuí-los para apaziguar nossa derrota.



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